Sexta-feira, 22:40 hs, ponto de ônibus lotado. Seria mais uma noite normal, se não fosse o calor de fevereiro e a agitação do inicio das aulas. Eu como sempre, seguindo a minha rotina de pegar o ônibus lotado até o meio do caminho, e assim, descansar o corpo, enquanto a mente vaga por alguns lugares e pessoas.Como se não bastasse, a demora do ônibus era fatal para aquele momento angustiante: fome, sede e uma louca vontade de fumar...Por 15 minutos, disfarço a minha ansiedade percebendo alguns detalhes tão comuns no dia a dia, mas, não sou de ferro, e enquanto ignoro a demora de um ônibus lotado e uma cumprida viagem, me afasto e não exito a uma fumacinha...Meio louco é saber que enquanto fumo, trago para mim 4.700 substancias tóxicas que aos poucos me matam, e me deixa ainda mais dependente...Além, é claro, de contaminar aqueles que sem pedir, acabam respirando aquela fumaça horrível, porém, que me deixa calma, leve e feliz. Ao me afastar da multidão, dou-me conta que não é apenas por educação, mas, pela vergonha de me sentir tão idiota, enquanto vou me suicidando vagarosamente. Todavia, ouço alguém retirar o meu silencio entre um trago e outro, me pedindo essa maldição que alimenta os meus sentidos nos momentos de desespero e angustia. Uma senhora, de mais ou menos 67 anos, viciada desde dos 14 , por esta droga que patéticamente nos faz feliz.Uma senhora bem apanhada, segura de si e muito educada, que delicamente e vergonhosamente me pede um cigarro: "esqueci o meu em casa, e estou quase louca", retruca..."Me vende um?" Com um sorriso sem graça, (c0mo vender uma maldição desta?) retirei o maço (carlton) da bolsa e o estendi até a senhora, assim, a minha culpa de se matar lentamente, diminuia...Fumar carlton, era uma opção desde do inicio, como se esse ou aquele cigarro fizesse alguma diferença...Mas, era uma questão de status, uma forma de me sentir menos culpada(existe isso?) Olhei fixamente para aquela senhora tragando, e pude perceber o alivio em cada tragada, uma sensação de conforto e bem estar, fui relembrando que ao sair da faculdade, eu tinha um propósito: apenas de entrar em um ônibus vazio, que me levasse para casa em segurança e paz...Mas, a agitação,o calor, e a demora, me fizeram lembrar que ali bem ao meu alcance tinha algo que me faria esperar e até enfrentar aquele maldito ônibus lotado... E fui buscando razões, explicações para aquele ato tão inconveniente, tão vergonhoso e anormal. As campanhas hipócritas que enchem o saco a cada maço de cigarro obtido, as leis, enfim, tudo em volta do fumante. O Ministério da saúde adverte:"Fumar faz mal a saúde".E dai? O que fazem mais? Cigarro é uma droga (Quer que eu desenhe?).Seria verdadeiro se ao invés de campanhas de sensacionalismo, o governo verdadeiramente se preocupasse com os fumantes,esses sim, vivem a mercê de um vicio, tanto quanto do crack, da coca,etc.O problema é que o cigarro ainda é o imposto mais alto(IPI) 58,8% que enchem os caixas governamentais, e por isso, como alienados, somos tratados como idiotas, que se propõe a saber que estamos lentamente morrendo.Então, como forma de uma consciência moral, governos e entidades, buscam uma forma incoerente de inibir os fumantes, tirando de si, a responsabilidade da mortalidade. Oras, se isso tudo é algo que mata, que fere os princípios sociais e morais, então, estamos falando de droga,não? Se é droga, por que não é proibida?E voltaremos a falar das conveniências, das hipocrisias etc..Como falar de uma droga que mata tanto quanto as demais, e não proibi-la? Então, a droga que mata, que nos obriga, envergonha e vicia é altamente lucrativa...E quem se preocupa se vou morrer de câncer pulmonar? As campanhas que me lembram disso?Os governos que arrecadam 58,8% e fazem dessa droga o seu fim lucrativo? O seu Joaquim que compra à vista da Souza cruz?(sim, a souza cruz só vende à vista, nada de faturado)...Na verdade, se essa droga maldita for proibida, os cofrinhos dos nossos políticos ficam um tanto quanto magrinhos, e eu? Ah! Vou recorrer a alguns paliativos, pois, pior do que morrer de enfisema pulmonar, é contribuir para que os cofres dos meus dirigentes fiquem ainda mais cheinhos... Se morrer por causa de...Fosse pela causa , me bastaria...No mais, digamos não à qualquer tipo de vicio que destrua a integridade humana de um ser vivo, e junto à hipocrisia que bailam em nossos comerciais e dirigentes..
Cláudia Bispo
Cláudia Bispo

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