Minha alma veste a cor... No tronco o meu sangue transforma-se em fúria, em lágrima que um dia derramei. Vossos pensamentos não vem de encontro ao meu...Não penso! O direito que a mim foi concedido foi fazer do teu reino o meu pavor. E dos montes, o meu refúgio. Fui caçado feito bicho, lavando a dor que denomina a minha cor. Negro sim! Raça sem direitos, mas, com sonhos: Ser liberto para a morte ser primor. Não te culpo por não levar consigo o que sou, e de mim, a semelhança. Nao reinaria com tuas palavras, apenas murmurios, lamentos e canto...De tal forma que fiz do tronco, o destino , da minh'alma, a vergonha, e do resto, uma singela sorte... Deveras eu, limpar o pasto, onde passáros encantam, e do mato que plantei horizontes, a minha vida. Senhores por direito, acorrentam-me a morte, e vende-me como peça sem valor.... Em suas terras frias, onde o sangue que se cai , grita ... Nesta terra por onde pisei , comi e bebi com os porcos , onde se fez o tronco, honrar o meu labor. Ao rezar, pedi clamor, proteção a oxalá, que de mim, sobrasse virtudes, a imagem de um homem, dignidade, uma vida com poucos, com pai e mãe... Uma identidade para que eu pudesse responder a quem me acorrentou, sem renegar quem sou. E ao amanhecer, viver... Para que o meu sangue se transforme em agua, lavando o espirito e o que restou...E que nas cantigas que levo, seja entoada a minha voz, que rouca se prende a sensala... Liberdade! Ao me fazer gente, com sapatos e carta nas mãos... Senti no momento, o vento e o frio, braços livres e os filhos que me sobraram, em um mundo aberto para buscar quem sou, Com a certeza de não mais ser açoitado pelas mãos de quem me desprende a alma... De um alguém que ainda não sou...
Claudia Bispo

